Os Inklings e a ideia de Amizade de C.S. Lewis

Antes de se aprofundar sobre os Inklings é preciso ter sempre em mente que eles eram um grupo de homens estudiosos de Oxford que se reuniam para conversar sobre seus gostos literários em comum. Dentro desse grupo havia uma verdadeira amizade entre eles. Por isso, para entender os Inklings é preciso primeiro ter a noção do que é uma amizade e seus vários aspectos.

C.S. Lewis escreveu a respeito da Amizade em seu livro Os Quatro Amores, publicado em 1960, como resultado de gravações preparadas para a Rádio em 1958. No livro Lewis expõe comentários sobre os quatro amores Afeição (Storge), Amizade (Philia), Amor romântico (Eros) e Caridade ou amor espiritual (ágape).

C.S. Lewis tenta diferenciar a Amizade das outras três formas de amor elencadas. Para ele a Amizade é “o menos natural dos amores: o menos instintivo, o menos biológico e o menos necessário. Não há nada de visceral nela, nada que acelere o batimento cardíaco ou nos faça enrubescer ou empalidecer.” (LEWIS, 2013, p.82-83).

Mesmo não tendo feito uma pesquisa cientifica sobre o assunto, Lewis parece ter apontado vários aspectos que posteriormente se comprovaram por estudos antropológicos e psicológicos.

Estudos epidemiológicos demonstram que indivíduos socialmente integrados vivem mais (Fehr, 1996). Relacionamentos pessoais ou mais próximos – por exemplo, com familiares, amigos e parceiros românticos – atenuam a solidão e proporcionam bem-estar subjetivo, tendo, portanto, papel importante na felicidade pessoal e na promoção da saúde (Argyle, 2001; Berscheid & Regan, 2005). (SOUZA,HUTZ, 2008, p.258).

Certamente ao escrever sobre a Amizade o autor tinha em mente os seus amigos e companheiros Os Inklings. De tal forma que ler e entender esse ensaio possibilita uma melhor compreensão desse renomado grupo de intelectuais.

A Amizade na Antiguidade

As primeiras amizades devem ter surgido nos primórdios da humanidade. Quando os homens buscavam caçar animais para sua tribo e nesse tempo discutiam ideias de como melhorar no que faziam ou como eram suas habilidades. A Amizade surgia para um compartilhamento de interesses em comum, muitas vezes ligados a sobrevivência.

Com o tempo, a amizade se relaciona com outros aspectos. Em muitas guerras, amigos se uniam para se defenderem nos momentos de maior aflição e também comemoravam as vitórias.

Os pensadores da antiguidade viam a Amizade com grande importância “coroa da vida e escola da virtude”. Mas atualmente parece que as pessoas tratam a amizade como algo meramente por diversão e um passa tempo e assim é possível ter uma vida inteira sem a experiência da amizade.

Devido a essa superficialidade das relações surge uma dificuldade de compreender o que é de fato uma amizade e o que é apenas um companheiro.

Diferença entre companheiro e amigo

C.S. Lewis faz uma distinção entre o companheirismo e a amizade. Naquela existe apenas uma atividade compartilhada (caçar, estudar, pintar etc), enquanto esta é algo mais específico e surge com um interesse em comum.

A amizade precisa de uma fonte e C.S. Lewis a identifica como sendo o ‘companheirismo’ ou ‘clubismo’. Dentro dessas atividades compartilhadas é que surge a amizade.

A Amizade surge do mero Companheirismo quando dois ou mais dos companheiros descobrem que têm em comum alguma percepção ou interesse ou mesmo gostos que os demais não partilham e que, até aquele momento, cada um acreditava ser o seu tesouro ou fardo especial. A expressão típica de um começo de Amizade seria algo como: “O quê? Você também? Pensei que eu fosse o único.” (LEWIS, 2013, p.92).

Os Inklings pode ser identificado como esse clube mencionado por Lewis. Nele havia vários homens que se encontravam para tratar de temas que gostavam de uma forma descontraída, mas certamente dentre eles haviam aqueles que eram mais próximos. Por exemplo, Owen Barfield era mais próximo de C.S. Lewis do que de J.R.R. Tolkien, enquanto que Hugo Dyson era mais próximo de Tolkien do que de Lewis.

Há uma fina linha de distinção entre os termos, difícil de identificar em certos grupos. Mas a ideia é que a amizade não se limita a apenas uma atividade em comum ou um local em comum, mas envolve um vinculo maior, com um interesse em comum e que acaba resultando em uma empatia.

A Amizade é sobre algum interesse em comum

Segundo C.S. Lewis, a condição para ter amigos é querer alguma coisa além de amigos. É por isso que aquelas pessoas que apenas querem “fazer amigos” nunca conseguem verdadeiramente. Conforme o autor de Crônicas de Nárnia: “Toda amizade precisa ser sobre alguma coisa, mesmo que apenas um interesse por dominó ou ratinhos brancos. Quem não tem nada não pode compartilhar nada. Quem não está indo pra lugar nenhum não pode ter companheiros de viagem”. (LEWIS, 2013, p.94).

O interesse em comum dos Inklings é revelado pelas cartas de C.S. Lewis. Ao responder sobre as semelhanças entre suas obras e as obras de Tolkien ele escreveu em carta o seguinte:

As semelhanças entre sua obra e a minha são devidas, eu acho à: (a) natureza – temperamento e, (B) a fontes comuns. Nós dois estamos embebidos em mitologia nórdica, contos de fadas de George MacDonald, Homero, Beowulf e romances medievais. Além disso, claramente, nós dois somos cristãos (ele, um C.R.). (LEWIS, 2007, Carta Francis Anderson, em 23 de setembro de 1963, p.1458).

A maioria dos Inklings pertencia a mesma geração de homens que nasceram no final do século XIX ou início do século XX. Tiveram contato com obras dos autores George MacDonald, William Morris, G.K. Chesterton e também eram admiradores de mitologias antigas como as obras de Homero, Beowulf, romances medievais, contos de fadas e mitologia nórdica. Além disso, a maioria dos Inklings eram cristãos e costumavam escrever artigos e livros.

A Amizade não se limita em quantidade

A amizade é o menos ciumento dos amores, pois permite que mais de uma pessoa participe e isso acrescente ainda mais nessa relação. Um novo amigo entre amigos traz mais deles do que se fosse apenas uma amizade entre dois indivíduos, assim “dividir não é diminuir”, pois na expressão de Dante “ai vem aquele que vai ampliar o nosso amor”. Quanto mais amigos se fazem e se incluem em um ciclo mais poderá se saber daquele amigo do que numa amizade apenas a dois.

Nesse sentido, C.S. Lewis diretamente coloca como exemplo a ausência de Charles Williams que havia falecido em 1945, treze anos antes do livro Os Quatro Amores ser escrito:

Em cada um de meus amigos existe algo que apenas outro amigo é capaz de trazer à tona plenamente. Eu, sozinho, não sou grande o bastante para pôr uma pessoa inteira em atividade; preciso de outras luzes além da minha para revelar todas as suas facetas. Agora que Charles morreu, nunca mais verei a reação de Ronald a uma determinada brincadeira de Charles. Em vez de ter mais de Ronald – de tê-lo “só para mim” agora que Charles se foi -, eu passo a ter menos de Ronald. Por isso, a Amizade é o menos ciumento dos amores. Dois amigos adoram quando se junta um quarto, desde que o recém-chegado esteja qualificado para tornar-se um amigo de verdade”. (LEWIS, 2013, p.87).

A Amizade não visa a sobrevivência

De acordo Lewis, a amizade não serve para a sobrevivência, embora em determinados momentos isso seja um ponto em comum. A amizade tem um “valor de civilização”, pois ela não ajuda a viver, mas a viver bem. “quando a amizade produz frutos úteis para a comunidade, ela o faz acidentalmente, como um subproduto” (LEWIS, 2013, p.97).

Foram das conversas informais de amigos que surgiram grandes movimentos como a origem da matemática, quando alguns amigos se reuniam para conversar sobre seu interesse em comum por números, o comunismo, o tractarianismo, o metodismo, o movimento contra a escravidão, a Reforma protestante, o Renascimento e outros.

Embora a amizade possa ser útil ao individuo, especialmente em alguns momentos que precise de ajuda, ela não se baseia em auxílio. A assistência do amigo em momentos complicados é algo acidental, pois é apenas um meio de resolver o problema do outro para que logo voltem aos bons momentos juntos. “A marca da perfeita amizade não é que se preste um favor na hora da dificuldade (pois naturalmente se presta), mas que, uma vez prestado o favor, ele não faça a menor diferença. Foi um distúrbio, uma anomalia. Foi uma horrível perda de tempo, do tempo sempre curto que dispomos para passar juntos” (LEWIS, 2013, p.98).

Em momentos de dificuldades o amigo pode ser de valor extremo. Em O Senhor dos Anéis, quando Frodo partiu do Condado e no caminho encontrou o elfo Gildor este deu um conselho “Leve amigos, que sejam confiáveis e prestativos”. O nome do capítulo que consta essa frase é “Três não é demais”, o que pode ser relacionado com a ideia do Lewis de que em uma amizade não se limita em quantidade. Um sábio conselho dos elfos sábio e que mais tarde parece se completar com a fala de Merry para Frodo:

Pode confiar em nós para ficarmos juntos com você nos bons e maus momentos, até o mais amargo fim. E pode confiar também que guardaremos qualquer um de seus segredos, melhor ainda do que você os guarda para si. Mas não pode confiar que deixaremos que enfrente problemas sozinho, e que vá embora sem dizer uma palavra. Somos seus amigos, Frodo. De qualquer modo, é isto: sabemos a maior parte do que Gandalf lhe disse. Sabemos muito sobre o Anel. Estamos com um medo terrível, mas iremos ao seu lado; seguiremos você como cães”. (TOLKIEN, 2001, p.109).

Na obra de Tolkien, O Senhor dos Anéis, apresenta diversas situações em que a amizade se torna essencial para se chegar a um objetivo bom e o quanto o auxilio do outro pode levar a caminhos mais distantes do que se fossem realizados individualmente.

A Amizade ignora os contextos pessoais

Em uma amizade as pessoas podem se relacionar sem se preocupar com os contextos pessoais: de onde vem, o que faz da vida, qual sua formação etc. Cada individuo em uma relação como essa é apenas a si mesmo. “Num círculo de verdadeiros amigos, cada homem é simplesmente o que ele é: não representa nada além dele mesmo” (LEWIS, 2013, p.99). Evidente, como Lewis declara, que é natural ao longo das conversas se descobrir aspectos da vida pessoal do amigo, mas isso não é visto como o mais importante ponto da conversa.

Essa é a majestade da Amizade. Nós nos reunimos como príncipes de países independentes, no estrangeiro, em território neutro, livres de nossos contextos. Esse amor (em essência) ignora não somente nosso corpo físico como também todo aquele corpo formado por nossa família, nosso trabalho, nosso passado e nossos vínculos” (LEWIS, 2013, p.99).

A Amizade pode ser um bolsão de resistência

Lewis afirma que “Toda Amizade real é uma espécie de secessão, ou mesmo de rebelião.” (LEWIS, 2013, p.112). Um grupo de pessoas que tem um forte laço de amizade pode se tornar uma resistência a imposição de algum governo autoritário ou mesmo pode surgir ideias de um grupo que possam querer dominar.

Desse modo a amizade é ambivalente. Tornam melhores os homens bons e piores os homens maus. Um homem que pretende realizar coisas boas consegue ampliar isso com seus amigos, enquanto que aquele que pretende fazer algo ruim também consegue. Por exemplo os grupos de filantropia que buscam ajudar pessoas necessitadas (como amizades boas) e as gangues, quadrilhas e máfia (como amizades ruins). Lewis então vê que é possível amizades que produzam bons e maus frutos.

Além disso, existe um risco de se ignorar outras pessoas e assim ocorrer à transferência da humildade individual para um orgulho corporativo, algo como o esnobismo. Pelo fato da amizade ser um ato de escolha de pessoas para interagir com base em interesses em comum é possível que os amigos se distanciem do restante de sua sociedade e com isso possa surgir o orgulho corporativo, quando quem for de fora de seu ciclo é menosprezado e ignorado.

Para Lewis em um ciclo de amigos deve existir a humildade individual, que é o reconhecimento de que ao estar diante de outros iguais você percebe algo a mais e pode aprender com isso, mas deve sempre se lembrar que depois da reunião a vida continua e os afazeres sociais comuns também. Com essas ideias é que ele afirma que “A Amizade é até mesmo angélica, por assim dizer. Mas o homem precisa estar triplamente protegido pela humildade para comer o pão dos anjos sem risco”. (LEWIS, 2013, p.123).

Ao descrever a Amizade, C.S. Lewis parece descrever bem como se sentia em relação aos outros Inklings. Em um parágrafo parece sintetizar todo o sentimento em relação ao encontro com os amigos:

Numa amizade perfeita, esse Amor Apreciativo é muitas vezes, na minha opinião, tão grande e tão solidariamente alicerçado que cada membro do círculo se sente, em seu íntimo, humilde diante dos demais. Às vezes ele se pergunta o que está fazendo ali, entre pessoas melhores que ele. Estar na companhia deles é uma sorte que não merece.Especialmente quando o grupo inteiro está junto, com cada um despertando tudo o que há de melhor, de mais sábio ou de mais engraçado em todos os outros. São aquelas reuniões especiais – quando quatro ou cinco de nós reunimos na estalagem, depois de um dia cansativo; quando calçamos nossas pantufas e estendemos os pés na direção do fogo, cada um com sua bebida no braço da poltrona; quando o mundo inteiro, e algo além do mundo, se abre para nossas mentes enquanto conversamos; e quando ninguém tem nada para exigir ou cobrar de ninguém, mas estamos todos livres e iguais, como se tivéssemos nos conhecido há uma hora, e ao mesmo tempo uma Afeição, amadurecida pelos anos, nos envolve. É o melhor presente que a vida – a vida natural – tem para nos dar. Quem poderia merecê-lo?”  (LEWIS,20133, p.101).

 

BIBLIOGRAFIA UTILIZADA:

LEWIS, C.S. Os Quatro Amores. Wmf Martins Fontes, São Paulo, 20W3E13.

______ The Collected Letters of C.S. Lewis, Volume III. HarperCollins, 2007.

TOLKIEN, J.R.R. O Senhor dos Anéis. Martins Fontes, 2001.

SOUZA, Luciana Karine de. HUTZ, Claudio Simon. Relacionamentos Pessoais e Sociais: Amizade em adultos. In Psicologia em Estudo, Maringá, v. 13, n. 2, p. 257-265, abr./jun. 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/pe/v13n2/a08v13n2.pdf

 

REFERÊNCIA AO ARTIGO DE ACORDO COM ABNT:

FERREIRA, Eduardo Oliveira. Os Inklings e a ideia de Amizade de C.S. Lewis. Disponível em: https://osinklings.wordpress.com/2017/03/17/amizade/  Publicado em: 17 de Março de 2017. Acesso em: (data que tenha acessado o artigo)

Anúncios

3 comentários em “Os Inklings e a ideia de Amizade de C.S. Lewis

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: